Quando lia contos de fadas...

“Quando lia contos de fadas, eu imaginava que aquelas coisas nunca aconteciam, e agora cá estou no meio de um! Deveria haver um livro escrito sobre mim, ah isso deveria! E quando for grande, vou escrever um.”

Alice no país das maravilhas (Lewis Carroll)




Ás vezes, achamos que uma crítica pode paralisar uma ação. Mas muitas vezes, a crítica pode ser um impulso para a superação.

Essa história começou em 1994, quando eu descobri que as palavras não eram palavras e sim, sentimentos.

Tinha 14 anos, prestes a sair do ensino fundamental e ir para o ensino médio e nessa época, assim como hoje, adorava escrever. Escrevia sobre tudo. Quando não podia falar, por ter sido uma garota tímida na infância, escrevia. Meus dois hobbies sempre foram a escrita e a música. Tocava e escrevia. Tudo aquilo que poderia ficar no silêncio de mim mesma e do mundo. E só sentir. Assim são as palavras pra mim.

Nessa época tinha uma grande amiga, que também adorava escrever. E tínhamos uma professora, carrancuda, que acreditava que somente aprenderíamos se não respirássemos na sala de aula. Era uma hora à base do medo e das dúvidas, porque a qualquer momento poderia acontecer algo que mudasse o rumo da matéria daquele dia. Mas nada disso importava porque eu adorava escrever. Estudava português, lia e escrevia com o mesmo prazer que se sente ao comer um brigadeiro. Adorava a arte das palavras que sempre caminhavam naquela folha de papel formando sílabas, palavras, frases, textos, poesias e canção.

Assim me sentia, dançando nas nuvens, ou com um trompete no céu, abrindo caminho para os anjos. Isso era escrever naquela época.

E no último bimestre do ano, já com os pés no ensino médio, acreditando poder encontrar um novo ciclo em apenas mais alguns dias, porém algo aconteceu. A cada dois meses, a professora nos dava um livro para ler, formaram-se os grupos e cada equipe deveria escrever uma resenha- análise daquele livro. Nesse grupo, eu e minha amiga, detentoras da escrita, ficamos responsáveis por fazer todo o trabalho. O restante do grupo somente observou.

Os dias se passaram e a análise foi concluída. Entregamos o trabalho como se fosse uma obra- prima. Orgulhosas do que havíamos feito.

No dia da entrega final do trabalho, toda a classe esperava ansiosamente suas notas. Os alunos sempre tremiam nesse dia, afinal a professora era muito exigente. Mas eu adorava escrever. Adorava aquela aula. E tínhamos certeza do que havíamos feito.

Os representantes dos grupos foram chamados um a um. Transpirávamos nesse momento. E de repente a surpresa. Eu e minha amiga, as representantes do grupo, fomos chamadas na frente da sala. Ufa! Ela teria reconhecido nosso trabalho como o melhor da sala. Ficamos alegres por dentro. Mas daí veio a bomba. Tiramos zero. Isso mesmo, zero. E na frente de todos os nossos amigos, fomos acusadas de não termos feito o trabalho sozinhas e sim, ajudadas por nossos pais. Era impossível alguém daquela idade escrever tão bem a respeito de um livro.

Totalmente constrangidas, e sabendo internamente da nossa verdade, fomos chorando na coordenação. Escola rígida, dirigida por freiras. A diretora também freira nos atendeu com má vontade e nos disse que deveríamos falar com a professora. E naquele dia, soubemos que existiam muitas injustiças no mundo.

Foi desde então que decidi que escreveria para o resto da minha vida. Mas não simples palavras. Deveria ser algo com sentido para mim. Algo profundo. Algo que pudesse tocar com o coração. E que nenhuma lágrima poderia me tirar a minha arte.

Era algo simples poder imaginar que uma professora deveria se orgulhar de ver duas alunas tão estudiosas se superarem em um trabalho. Porque as palavras são públicas, elas deveriam ser utilizadas com maestria. E foi o que fizemos. E foi o que tentamos dizer. Então aprendi que não basta querer dizer com palavras. Se não pudesse chegar no coração daquela professora rude, que não entendeu o sentido das coisas.

Anos se passaram e aquela historia se repete todas as vezes que devo voltar àquele colégio para votar. Todos os oito anos de estudos se resumiram a esse evento, que mesmo se pudesse, nunca borraria do coração. Porque de verdade eu aprendi naquele dia que ninguém tiraria o grito se eu quisesse gritar, o choro se eu quisesse chorar, ou o riso se eu quisesse gargalhar. E aquele que se transformou no dia difícil da juventude, ensinou-me que o outro deveria ser referência externa, mas se eu estivesse com o coração tranquilo, ninguém poderia me julgar. Eu sou minha referência.

Naquele dia, também aprendi que a força da palavra é maior, porque tantos anos se passaram, quase 20, e eu continuo a escrever.

Porque eu não escrevo palavras, eu escrevo sentimentos.

Impossível deixar de dizer que eu dedicaria a minha escrita àquela professora malvada que me fez entender que quando se tem algo para dizer, basta fechar os olhos, imaginar um conto de fadas, ou uma história de detetive ou uma situação qualquer feita com princesas, soldados, delegados, ou qualquer personagem real ou fictício. Afinal, aqueles que viveram minha historia, seja na vida real ou imaginária, merecem meu devido respeito.

Para aqueles que estão na minha vida ou que participaram dela por segundos, horas, dias ou anos, dedico a minha música. Porque de verdade sempre achei que palavras juntas soam igual canção, e nos levam para aonde queremos estar. E numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo...



"Que os sensíveis sejam também protegidos. Que sejam protegidos todos os que veem muito além das aparências. Todos os que ouvem bem pra lá de qualquer palavra.Todos os que bordam maciez, no tecido áspero do cotidiano."



Ana Jacomo

Comentários

  1. Textos assim tocam .... Obrigada por compartilhar comigo.... :) Rafa

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  2. Profuda reflexão, pura anamnese. Como é bom ouvir a verdade que habita cada um, ter acesso a outros saberes, textos assim são sabores que alimentam satisfatóriamente a todos que tiverem contato com ele. Um banquete Carol!!!

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